Poesias de 1 a 99

Poema #54: Intervalo

“Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino
Que envelheceu, um dia, de repente!”
Mário Quintana (1906-1994)

Tenho quarenta e cinco anos
e já neste meu último aniversário
foi levantada a hipótese irreversível
do envelhecimento antes da morte,
mas nunca sabemos o que virá primeiro.

Seja como for o assunto é desagradável.

Imaginei-me de carteirinha sexagenária,
entrando pela porta da frente dos ônibus
e viajando de graça pelo país dos meus netos.

Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro
no banco e haveria um guichê específico
esperando a minha dificuldade de caminhar.

Soube também que eu poderei requerer
um acréscimo no valor da aposentadoria,
para gastar com hospitais, médicos e remédios.

Seja como for o assunto é desagradável.

A minha vontade é rasgar
o estatuto do idoso
e voltar a ser criança.

Uma Escada que Deságua no Silêncio

Milton Rezende

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

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